Sartre e o Método Progressivo-Regressivo

Uma breve abordagem ao método de subjetivação com Sartre.

Thiego S. Gomes

9/15/2025

                        O Processo de Interiorização em Sartre

Para entender a proposta de Sartre é necessário pensar nos meandros condicionantes que o envolvem, bem como sua própria interação no mundo. Jean-Paul Charles Aymard Sartre foi um pensador francês que viveu no século XX, dialogou com diversos pensadores de sua época (entre os principais a escola alemã), assim como acessou bastante carga da história da filosofia positiva. Vivenciou tempos como a revolução francesa e deixou vasta contribuição para humanidade, não apenas na filosofia, tendo - entre outros - sido um expoente na literatura.

Importante contribuição do começo do modernismo foi o conceito de subjetividade, discutido por diferentes autores. Com objetivo de não apenas melhor entender a realidade na qual estamos postos, mas por meio da razão também buscar melhorias concretas da realidade.

Sartre encontrou em Marx uma análise muito coerente do que é a realidade histórica. Onde Marx entende a necessidade de mostrar e modificar as condições práticas com possibilidade de emancipação através de uma descrição de como a sociedade se comportava. A leitura de Marx é de fundamental teor quando da importância do entendimento sobre o contexto e as condições em que estamos inseridos. A maioria das críticas de Sartre se direcionam fundamentalmente ao que veio a ser o marxismo e sua atuação.

Para Sartre, o marxismo parou no tempo, houve uma separação entre a teoria e a prática, liquidou-se a particularidade (dissolvendo-a no universal). Se tornou um marxismo preguiçoso, por assim dizer. O existencialismo pretende, sendo fiel ao marxismo, procurar mediações que permitam compreender o concreto singular, recuperando Marx e Engels quando dizem que “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim, sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.” (Marx, 2003: 7).

Marxismo e existencialismo não buscam diferentes objetivos, mas o segundo busca encontrar o homem no seu cotidiano. Distancia-se de um método mais ontológico para questões mais históricas. Sartre diz que “o materialismo histórico fornecia a única interpretação válida da história e o existencialismo permanecia a única abordagem concreta da realidade” (Sartre, 1972, p. 23). Portanto o existencialismo está, efetivamente, à margem do marxismo.

Assim, o existencialismo, na figura de Sartre, propõe um método: progressivo-regressivo. Progressivo pois busca entender o cenário dado (da época à singularidade) e regressivo pois busca entender as particularidades dos envolvidos (da singularidade à época).

Claramente o homem é produto do meio, entretanto não é apenas produto. É, ao mesmo tempo, produto e agente. Pois parte uma estrutura dada e condicionante, mas por meio de suas ações modifica e ressignifica, nas proporções possíveis, o ambiente em que está inserido. Portanto, não havendo uma simples condição determinista. “Caso contrário, seriam os simples veículos de forças inumanas que, através deles, regeriam o mundo social” (Sartre, questões de método, página 74).


O homem experiencia uma realidade objetiva, que é preenchida pela condição temporal, o que torna essa realidade um objeto diferente à cada fatia de tempo perpassado. Entendendo essa condição, ainda que primitivamente, o homem pode aspirar um objeto que sequer está dado, mas pode ser alcançado de alguma forma. À esse objeto desejado que está por vir (que não necessariamente é um objeto, mas pode ser uma nova realidade objetiva) e que o homem busca tornar realidade por meio de suas ações, chamamos de projeto.

Nem sempre nossas ações levam ao objeto desejado, pois como somos apenas parte do todo, nossas ações nos escapam a nós mesmos e se juntam às ações de todos e tudo envolvido. Por isso é possível muitas vezes não nos reconhecermos em determinado local ou tempo, mas isso não diz que não fazemos parte ou também não modificamos a realidade objetiva, senão que os outros também o fazem.

Efetivamente os projetos humanos são sempre superação da objetividade dada. E existe aqui algo intrinsecamente humano, que é a condição da nossa subjetividade. Quando recebemos o movimento do mundo, desde o nascimento, há ali estruturas concretas de realidade dadas que nos condicionam, impondo limites e possibilidades. A partir disso, entre um objeto e o próximo, interiorizamos e damos significados individuais ao que está dado e ao caminho que entendemos compreender melhor o resultado almejado. Essa subjetividade atua invariavelmente (mesmo nos casos de alienação mais severos) e tem objetivo de dar sentido àquilo que está dado. Para Sartre essa condição é fundamental para nos entendermos como agente e não apenas produto. Seu método progressivo-regressivo coloca que para entendermos o movimento histórico (bem como as pessoas e contextos) devemos da mesma forma entender como essa significação, a saber, objetivação → subjetivação → objetivação, se dá na realidade cotidiana e comum à todos. A isso, Sartre chama de interiorização. Interioriza-se o exterior, ou seja recebe as condições objetivas do que está dado para que se possa entender e reagir, ao passo que exterioriza-se o interior, devolvendo ao mundo a subjetividade assimilada.

É na compreensão conjunta da superestrutura e da subjetividade individual cotidiana, que atuam ao mesmo tempo, que podemos entender, ou ao menos nos aproximar, efetivamente do movimento histórico dialético que atravessa o homem e sua realidade. Em seu método, reafirma que esse entendimento do todo com o subjetivo é um diálogo constante e complementar, devendo ser lido e praticado em ambos contextos.