Sobre as bases da Filosofia Clínica

Uma breve abordagem dos conceitos gerais que nos preparam as bases do diálogo.

FILOSOFIA CLÍNICA

Thiego S. Gomes

5/14/2024

                        Uma modesta Introdução à Filosofia Clínica 

A filosofia demonstra, desde os tempos antigos, sua capacidade de ir em direção ao outro; de orientar; de aconselhar e educar pessoas; de compreender o mundo e a si mesmo. Fazer cessar os equívocos da razão e encontrar harmonia quanto ao pensamento e às necessidades práticas da vida são metas importantes da reflexão filosófica ao longo da história. Nesse sentido, a filosofia cumpre a importante tarefa de buscar equilíbrio entre ser, pensar e agir.

A Filosofia Clínica se apresenta como um processo terapêutico e se ocupa das questões existenciais. Muitos dos conflitos que permeiam a interioridade de cada um de nós ao longo da vida são essencialmente filosóficos. Como entendemos o mundo, como percebemos a nós mesmos, como lidamos com a realidade interna e externa, são questões que a Filosofia Clínica se dedica a trabalhar. Idealizada e sistematizada pelo filósofo e médico Lúcio Packter, nas décadas de 80/90, essa abordagem clínica faz uso dos fundamentos filosóficos como base para a atividade terapêutica. Dessa forma, oportunizando uma profunda compreensão acerca da singularidade de cada indivíduo, esse trabalho propicia não apenas a possibilidade do conhecimento de si mesmo pelo partilhante, mas, existencialmente, do cumprimento mais adequado, entre muitas possibilidades, de sua função no mundo e segundo as potencialidades que lhe são, e em cada um de nós de forma única, latentes.

Na literatura da Filosofia Clínica não utilizamos o conceito de “paciente”, nos abstemos do julgamento médico e dos princípios da psicopatologia. Da mesma forma, não nos referenciamos a um “cliente”, segundo princípios econômicos. Pelo respeito e generosidade em partilhar a intimidade de seu caminho existencial, o terapeuta o recebe como “partilhante” (GOYA, 2017, p. 06). Portanto, os parâmetros conceituais de normal/anormal, saúde/doença/cura, ou quaisquer diagnósticos prévios e estatísticos, não são adequados à visão de mundo que permeia essa prática clínica. É importante, não erramos em salientar, estarmos sempre atentos à responsabilidade que é o cuidado para com o outro, de forma que a Filosofia Clínica não se fecha para outras áreas do conhecimento ao vindicar seus métodos e méritos. Pelo contrário, “a filosofia admite os limites e as especificidades de cada área do conhecimento e, por isso, o filósofo clínico não se habilita a trabalhar todo e qualquer problema. Há problemas de ordem orgânica e química que precisam ser tratados com medicamentos. Há situações em que o instrumental da Filosofia Clínica não possui elementos adequados para o trabalho. Conferidas essas possibilidades, o filósofo clínico encaminha […] o partilhante para um profissional competente naquela área de atuação” (AIUB, 2005, p. 115) .

O filósofo clínico será o responsável por conduzir, segundo uma relação de alteridade, interseções que, a partir de uma metodologia própria e dos fundamentos filosóficos, propiciem ao partilhante o reconhecimento adequado dos problemas que ele(a) percebe em sua própria existência. Partilhante é aquele que, a partir de um assunto imediato (seja uma dor, uma angústia, um deslocamento social, etc.), procura o filósofo clínico para o ajuste qualificado das múltiplas questões que ele(a) necessita de compartilhar/superar/compreender e/ou afins. Por sua vez, o filósofo clínico irá, pouco a pouco, desvelar, respeitando e assimilando cada etapa do processo, o assunto último que está na origem das dores e/ou dificuldades existenciais do partilhante.

A historicidade trazida ao consultório pela(o) partilhante é o fundamento para que se possa iniciar propriamente o trabalho clínico. A historicidade de um pessoa é a sua própria história, porém, detalhe importante, contada segundo as determinações de suas experiências, ou seja, trazendo-se à tona as questões fomentadoras de sua natureza interna conforme o que lhe foi subjetivamente determinante ao longo do percurso vivido. Concomitantemente, ao longo dessa trajetória, o filósofo clínico realiza o exame categorial das condições em que a pessoa vive e, com esses dados, evidencia a Estrutura de Pensamento (EP) que a configura, tão fiel quanto for possível. O Exame das Categorias (EC) diz respeito às cinco categorias que condicionam a nossa experiência de vida, a saber, assunto, circunstância, lugar, tempo e relação, e possibilitam a localização existencial de uma pessoa. Dito de outra forma, o EC permite, de maneira organizada, uma sólida representação para o filósofo clínico da condição de possibilidade da representação do outro. Nas palavras de Packter: “explorando as cinco categorias [...] o filósofo forma um conceito bem estruturado do mundo da outra pessoa: uma representação para si mesmo da representação do outro” (PACKTER, Caderno A, 2018). Por sua vez, o conteúdo de uma EP é o resultado de tudo aquilo que foi vivido pela pessoa e se mostra determinante, em maior ou menor grau, em sua malha intelectiva, ou seja, suas abstrações, emoções, sensações, intuições e tudo o mais que, interna e continuamente, constroem e moldam sua subjetividade. A EP é teorizada segundo 30 tópicos estruturais que, combinados a 32 submodos (que são os efetivos modos de agir no mundo), remetem ao infinito as possibilidades singulares de ser-no-mundo de cada indivíduo. Assim, cada EP é única, diferente e se relaciona consigo mesmo e com o mundo de forma completamente particular.

Ao longo das últimas décadas a Filosofia Clínica se consolidou e hoje se destaca como uma prática altamente personalizada e que preza pela singularidade de cada ser. A qualidade da interseção permite que a prática não seja eventualmente engessada em técnicas, tampouco uniformizada ou universalizada, senão dinâmica e ativa como a própria Estrutura de Pensamento também é. Em sua atuação, “o filósofo clínico é um profissional apto a pensar junto com a pessoa, sem interferir em suas decisões, auxiliando-a a refletir sobre si mesma e sobre o mundo que a rodeia, sobre opções e possibilidades para lidar com as questões cotidianas, respeitando seus valores, sentimentos, necessidades e escolhas”(Ibid.).

Referências:
AIUB, Mônica. Filosofia Clínica: o que é isto? Cadernos – Centro Universitário São Camilo, v. 11, n. 01, p. 113-121, 2005.
GOYA, Will. A escuta e o silêncio: lições do diálogo em Filosofia Clínica. 3. ed. Porto Alegre: Editora Mikelis, 2017.
PACKTER, Lúcio. Caderno A. Porto Alegre: Instituto Packter, s.d..

"Partilhante é aquele(a) que procura o filósofo clínico para o ajuste qualificado das múltiplas questões que ele(a) necessita de compartilhar/superar/compreender e/ou afins."

"Ler fornece ao espírito materiais para o conhecimento, mas só o pensar faz nosso o que lemos."

- John Locke